Na noite de 15 de fevereiro de 1875, a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, foi palco de um fenômeno luminoso incomum. O astrônomo francês Emmanuel Liais, diretor do Imperial Observatório, registrou o surgimento de faixas luminosas no céu, evento que pesquisadores modernos associam a uma rara aurora esporádica.
O fenômeno, observado do alto do Morro do Castelo, desafiou a lógica geográfica, uma vez que auroras são tipicamente associadas a latitudes polares. Estudos realizados em 2020 por um grupo internacional revisitaram as anotações do cientista para compreender a ocorrência na capital brasileira.
Um observador experiente no centro do fenômeno
Emmanuel Liais era um dos cientistas mais renomados do século XIX, tendo integrado o Observatório de Paris antes de ser convidado por Dom Pedro II para atuar no Brasil. Sua trajetória profissional incluía o estudo prévio de auroras na Europa e o domínio de técnicas de espectroscopia.
Às 19h45 daquela noite, o astrônomo identificou faixas esbranquiçadas que se moviam de sul para norte, formando um véu luminoso. A experiência do cientista permitiu distinguir o comportamento da luz de fenômenos meteorológicos comuns, classificando o espetáculo como uma manifestação atmosférica singular.
Análise científica e registros históricos
Conforme a noite avançava, as faixas apresentaram colorações avermelhadas e esverdeadas, características típicas das auroras boreais e austrais. O cientista utilizou um espectroscópio para analisar a luminosidade e garantir o rigor técnico do registro.
Em uma atitude pioneira, Liais interrompeu suas observações para notificar o Jornal do Commercio sobre o acontecimento. O relato enviado à imprensa da época tornou-se a base fundamental para que pesquisadores contemporâneos reavaliassem o evento científico.
Reinterpretação após 150 anos
O episódio permaneceu esquecido pela comunidade científica por quase um século e meio. Em 2020, pesquisadores de diversas nacionalidades consultaram a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional para confrontar o relato do francês com a física solar moderna.
A conclusão apontou para a alta probabilidade de uma aurora esporádica, fenômeno que ocorre mesmo longe das regiões polares e sem tempestades geomagnéticas severas. Embora não existam fotografias da época, a qualidade do registro técnico de Emmanuel Liais torna a hipótese cientificamente plausível.

















