O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou a desclassificação de um memorando da CIA que resume 16 anos de relatórios de inteligência (2004 a 2020) sobre planos do regime venezuelano para manipular sistemas eletrônicos de votação. O documento foi tornado público nesta quarta-feira (16) e detalha a atuação de órgãos de segurança da Venezuela na tentativa de alterar resultados eleitorais.
Aquisição da Sequoia e pressão sobre a Smartmatic
Segundo o memorando, em 2006 a compra da empresa americana Sequoia Voting Systems pela Smartmatic foi classificada pelo governo dos EUA como ameaça moderada à segurança nacional. A preocupação se baseava na ligação entre a Smartmatic e o governo da Venezuela, bem como em indícios de manipulação eleitoral dentro do próprio país sul-americano.
A pressão exercida pelo CFIUS (Comitê de Investimento Estrangeiro dos EUA) levou a Smartmatic a se desfazer da Sequoia em 2007. O episódio marcou a primeira ação concreta do governo americano relacionada à segurança de fornecedores de tecnologia eleitoral com vínculos estrangeiros.
Plano para a eleição de 2012
O trecho mais grave do documento trata da eleição presidencial venezuelana de outubro de 2012. Fontes de inteligência relataram que órgãos subordinados ao regime de Hugo Chávez — entre eles a Direção-Geral de Contrainteligência Militar e o Serviço Bolivariano de Inteligência — teriam elaborado planos para manipular resultados por meio de máquinas previamente programadas em parceria com o Conselho Nacional Eleitoral e a Smartmatic.
De acordo com os relatos, equipamentos alterados seriam instalados em cerca de 300 centros de votação localizados em áreas favoráveis ao chavismo. O objetivo seria garantir a Chávez uma vantagem de aproximadamente 1,5 milhão de votos. Chávez venceu aquela eleição por cerca de 1,6 milhão de votos.
A avaliação principal da CIA, contudo, sustentou que não houve fraude eletrônica em larga escala naquele pleito. Para chegar a essa conclusão, a agência considerou pesquisas eleitorais anteriores ao pleito, a ausência de padrões estatísticos considerados anômalos e a concessão da derrota pela oposição.
Já em 2013, uma análise alternativa produzida dentro da própria CIA contestou a posição oficial. O documento classificou a avaliação anterior como excessivamente dependente de indicadores que poderiam ser contornados por um esquema de fraude desenhado especificamente para evitar detecção. Essa divergência interna foi incluída no memorando desclassificado.
Conexão com o debate nos EUA
A liberação dos documentos ocorre em um momento em que o debate sobre segurança de sistemas eletrônicos de votação permanece sensível nos Estados Unidos. O memorando da CIA não faz referência direta ao sistema eleitoral americano, mas a confirmação de que a comunidade de inteligência investigou por quase duas décadas a possibilidade de manipulação digital em outro país reacende discussões sobre transparência e auditabilidade de processos eleitorais.
O documento deixa claro que se trata de um resumo seletivo de relatórios, não de uma reavaliação completa de toda a inteligência disponível. A CIA não afirma ter comprovado de forma definitiva que fraudes eletrônicas em larga escala determinaram eleições venezuelanas específicas, mas registra a existência de planos, vulnerabilidades e suspeitas documentadas ao longo de 16 anos por múltiplas agências americanas.

















