O Rio de Janeiro assiste a um alarmante crescimento nos registros de violência psicológica contra mulheres, que dispararam 1300% em uma década. Os dados são do Dossiê Mulher 2025, divulgado nesta quarta-feira (1º) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), que, pela primeira vez, dedica um capítulo à análise do impacto de narrativas digitais, com foco no movimento “redpill”.
Em 2025, o estado contabilizou 59.742 vítimas de violência psicológica, uma média de 164 novos casos por dia. Este tipo de agressão mantém-se como o mais recorrente contra mulheres no Rio de Janeiro pelo quinto ano consecutivo. A série histórica do ISP, iniciada em 2015, registrava apenas 239 ocorrências, evidenciando a escalada dramática dos números.
Impacto da ‘Redpill’ e Violência Online
Pela primeira vez, o Dossiê Mulher debruça-se sobre a influência de movimentos como o “redpill” nas redes sociais, que, segundo o estudo, contribuem para a naturalização da violência de gênero. A diretora-presidente do ISP, Bárbara Caballero, explica que o discurso “redpill” é marcado pelo “estímulo do ódio contra mulheres a partir de falas misóginas, que as reduzem a seres submissos aos homens, reforçando hierarquias de gênero que já deveriam estar superadas.” Caballero complementa que “esse ‘movimento’ é uma identidade de grupo com repertório e gramática social próprios, que utiliza esse ódio como forma de existir no mundo.”
A violência online também apresenta números preocupantes: foram 3.417 vítimas apenas de violência psicológica no ambiente virtual em 2025, e 5.970 registros de violência psicológica e moral na internet, o que equivale a aproximadamente 16 meninas e mulheres atingidas diariamente.
Além dos Números: A Questão da Responsabilização
O relatório do ISP não se limita à violência psicológica. Em 2025, foram registrados 5.870 descumprimentos de medidas protetivas e 105 feminicídios, com mais de 80% desses crimes ocorrendo no ambiente doméstico. Bárbara Caballero reitera a sutileza, mas a gravidade da violência psicológica: “Ela não deixa marcas. Na maioria das vezes, ela é sutil, mas não menos violenta. Creio que isso continua acontecendo porque a sociedade permite que essas violências aconteçam.”
A diretora do ISP enfatiza a necessidade de uma mudança de foco: “Mais do que aumentar o incentivo às denúncias e registros desses crimes, que são fundamentais para diminuir a subnotificação e dar visibilidade ao problema, é necessário avançar em estratégias que não foquem apenas nas vítimas, mas também na responsabilização dos autores dessas violências.”

















